Apesar da inspiração para este post ter vindo do Mundial Feminino de Futebol, ainda a decorrer, pouco falarei sobre a nossa seleção. Pessoalmente acho que estiveram muito bem no grupo mais difícil da primeira fase, mas cada um é livre de opinar à sua vontade. Limitar-me-ei a dizer que fiquei chocada com alguns comentários que li, nomeadamente um que lhes chamava, e parafraseio a segunda parte, “um grupo de sopeiras a divertir o Zé Povinho”. Francamente, mereciam bem melhor!
Mas passemos ao desporto feminino.
Atualmente está muito na moda a exigência de equiparação entre atletas masculinos e femininos em termos monetários, curiosamente da parte de muitos que acham perfeitamente normal, desejável, até, ter pessoas transgénero a competir em provas femininas – mantendo-me no futebol, sabiam que em 2015 a seleção do Irão incluía 8 homens com o pretexto de que estavam em transição, isto num país em que tal é proibido?
Há desportos – e países – em que essa equiparação forçada até pode ser justificada, depende muito do estado de evolução em que se encontram. É que sou contra equiparações às cegas, só servem para descredibilizar os esforços feminino e criar más vontades.
Tal como sou contra a exigência por parte do nosso Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol de passar o salário mínimo das jogadoras da primeira liga dos atuais 685 euros para 2280. E porquê? Bom, atualmente, só 3 das 16 equipas são totalmente profissionais, havendo no país um total de 175 futebolistas nestas condições (as restantes são semiprofissionais ou amadoras). Ora perante um aumento deste calibre, incomportável para muitos clubes, aposto que o seu número não irá aumentar num futuro próximo, para grande prejuízo de todas as jogadoras.
Na minha opinião, se queremos fazer progredir o futebol feminino em particular e o desporto feminino em geral, devíamos, sim, virar-nos mais para o seu acesso ao maior número possível de candidatas a atletas e tentar reforçar as suas receitas.
Comecemos por estas. As Federações – e não só – poderiam fazer um esforço para cativar patrocínios para equipas femininas, sejam de futebol, basquetebol ou qualquer outra modalidade, com ênfase das que estão em desportos mais recentes e menos divulgados. E se o Governo ajudasse um pouco ao permitir que uma parte desses contributos pudesse ser abatido nos impostos desses patrocinadores, pois bem, haveria por certo muitos mais.
Outra boa fonte financeira e de publicidade de todos os setores desportivos está nas transmissões televisivas. Bem sei que se a opção do espectador for entre jogos da 1.ª liga masculina ou da correspondente feminina, bom, esta ficará esquecida. Mas podia evitar-se isso escolhendo dias e horas para os jogos em que não haja concorrência direta e divulgando-os devidamente. E como nem todos podem ver desporto em canais pagos, que tal definir a transmissão de alguns em canal aberto?
Mas penso que o mais importante seria aumentar o número de atletas e, acima de tudo, modificar a ideia que se faz destes desportos femininos, vistos por muitos como simples cópia barata e sem o menor interesse. Só que não é bem assim. Por exemplo, a primeira vez que vi futebol feminino foi nos Jogos Olímpicos de Pequim de 2008. E confesso foi uma surpresa muitíssimo agradável pela sua qualidade – é que jogavam futebol e não uma misto de vale tudo em faltas e simulações como, infelizmente, é cada vez mais habitual no setor masculino. Ou seja, talvez por ser uma modalidade no seu início, joga-se a sério.
Continuando com o Mundial Feminino, surgiu umas semanas antes um anúncio televisivo em que se via um pai fanático de futebol que ficou arrasado por ter tido uma filha. Foi ignorando todos os seus feitos nessa área até ela passar a jogar na seleção nacional. Pois bem, acho que reflete bem uma parte do problema, um pai tem mais tendência de ensinar e praticar este tipo de desportos com um filho do que com uma filha.
Mas este anúncio só conta parte da história, é que muitas vezes a maior parte dos comentários adversos e travões à prática de uma modalidade destas vêm precisamente das mães e outras familiares femininas e das colegas de escola, nomeadamente por serem consideradas mais “violentas” e menos femininas.
Ora isto só muda com uma alteração radical de mentalidades que, como bem sabemos, não é nada fácil de conseguir. Mas penso que um passo na direção certa viria de disponibilizar acesso a estes desportos em tenra idade. É que nessa fase as crianças ainda não ligam muito a opiniões e os pais não se importam uma vez que... são crianças.
Um modo de o conseguir seria disponibilizar ginásios escolares e campos de treino de clubes a sessões de divulgação e treino abertas a todos, rapazes e raparigas. Acho que não há nenhuma razão para não treinarem juntos até uma certa idade, digamos, 10-12 anos. Já agora, o mesmo se aplica às academias dos clubes e às criadas por alguns jogadores de futebol e que só estão abertas a rapazes. E se o Ronaldo me está a ouvir, que tal apoiar academias e clubes secundários que tenham equipas femininas? É que com três filhas, mesmo que estas não gostem de desporto, só lhe ficaria bem...
E quando digo “sessões abertas a todos”, é mesmo a todos os que apareçam e queiram participar. É que nunca se sabe se o que começou por brincadeira não acaba por revelar um talento inato para aquele desporto, a ser acarinhado e educado em sessões de treino mais restritas.
É claro que tudo isto custa dinheiro, mesmo que os “treinadores” da fase aberta possam ser amadores – ou até pais ou outros familiares. Mas há a manutenção dos campos e ginásios e outras despesas com o próprio desporto, como o equipamento mínimo necessário (bolas e não só). Pois bem, todos sabemos que alguns desportos, nomeadamente o futebol masculino, geram milhões em receitas diretas e também indiretas, milhões esses sujeitos a impostos. Que tal canalizar uma pequenina parte para incentivar o desporto de jovens?
E outra pequenina fatia desse chorudo bolo para ajudar clubes locais a criarem e manterem equipas femininas em vários escalões etários? É que quanto maior for a base de que se parte maior é a qualidade das atletas que chegam ao topo e maior a probabilidade de atraírem receitas de bilheteira e outras, como as de publicidade e transmissão. Sem contar que muitas atletas implicam muitos familiares e amigos da família que certamente se começarão a interessar, em maior ou menor grau, pelo desporto em questão.
Acho, muito sinceramente, que tudo isto faria bem mais pelo desporto feminino do que as exigências que se ouvem por aí.
Para semana: Falemos da Igreja Católica. A propósito da JMJ... e não só.