Luísa Opina

Neste blogue comentarei temas genéricos da nossa sociedade.

99 - Esquizofrenia

Somos um país pioneiro nalgumas coisas e súper atrasados noutras

Há uma coisa, quer dizer, uma entre muitas, que sempre me intrigou em Portugal. Talvez me chame mais a atenção por ter vindo definitivamente para cá bem adulta, já lá vão uns bons 40 anos,  mas é francamente intrigante. Refiro-me ao facto de sermos avançadíssimos, pioneiros, até, em certas áreas e noutras, bom, até parece que não pertencemos ao chamado Ocidente.

Vamos a alguns exemplos.

Fomos o primeiro país a ter Internet dentro do Metro – na altura havia apenas um programa experimental em Seoul, promovido por um fabricante de telemóveis, mas que apenas abrangia 2 ou 3 paragens. Lembro-me, ainda, do espanto de estrangeiros quando viam os locais todos animados a falar ao telemóvel em plena viagem!

Mas... O Metro em si deixa imenso a desejar, com inúmeras interrupções técnicas – fora as inúmeras greves –  mais escadas rolantes muitas vezes paradas, elevadores avariados e pessoal que faz travagens bruscas, terríveis sobretudo a horas de mais movimento em que vai muita gente em pé. O mesmo se pode dizer dos transportes públicos em geral que, lembro, nem sequer existem em muitas povoações – mas ei, nas que existem pode-se usar o telemóvel!

Temos, depois, as criancinhas. Aqui, um bebé sai do hospital já com o cartão de cidadão tirado, ao contrário do que acontece em muitos países europeus em que os pais têm de tratar do seu registo por conta própria, poupando-lhes no mínimo uma deslocação. Ou seja, estamos avançados nessa área.

Mas... Uma mulher tem de dar à luz num hospital ou está por conta própria, uma vez que, ao contrário de muitos países Ocidentais, nomeadamente a França, não temos parteiras oficiais. Isto para não falar na dificuldade em aceder ao dito hospital – ou a outro qualquer – para ter o parto e os problemas enormes pós-nascimento em termos de Urgências Pediátricas, com consequências mais ou menos graves mas sempre indesejáveis tendo em vista o sossego dos pais e o bem-estar da criança.

Fomos também dos primeiros países em que se pode tratar de tudo e mais alguma coisa online – bom, na maior parte dos casos até só se pode tratar online, esquecendo-se, quem manda, da tal população envelhecida de que tanto falam e que tanto lastimam, mas pelos vistos sem a conhecerem e sem lhe prestarem um mínimo de atenção. Ou será que acham que todos, mas mesmos todos, dos 4 aos 104, sabem usar um computador ou um PC?

Mas... são raros os portais que foram dimensionados para o movimento que têm e a consequência é muito simples: em vez de passarmos umas horas numa fila à espera de sermos atendidos passamos essas, ou ainda mais horas, a tentar entrar no site para tratar de um assunto. Sim, há épocas do ano em que até é fácil, mas noutras, bom, todos precisam do mesmo e ao mesmo tempo, como na época da declaração de rendimentos, por exemplo – sim, sei que o prazo até é bom, mas pelos vistos esqueceram-se do passatempo nacional que é deixar tudo, mas mesmo tudo, para os últimos instantes.

Já agora, alguém é capaz de me explicar porque é que as matrículas escolares são feitas através do Portal das Finanças? E, com tanto cruzamento de dados que dizem haver, porque é que o registo eleitoral tem de ser feito pessoalmente, ao contrário de muitos sítios – França, mais uma vez – em que é automático?. E isto para nem falar em muitas outras burocracias desnecessárias, como a recentemente anulada validade de apenas 6 meses para uma certidão de óbito – estariam à espera que a situação do falecido mudasse?!

Continuando, temos a Via Verde, uma criação nacional muito útil e que já se estendeu a vários países mundo fora, com resultados às vezes um pouco bizarros. Por exemplo, em Bogotá, Colômbia, instalaram-na nas autoestradas de saída da cidade, mas a faixa respetiva tem um piso especial não liso que dá cabo da suspensão dos carros – resultado, camionistas e outros utentes regulares evitam-na o mais que podem, ou seja, tem o efeito oposto à intenção de quem teve essa ideia!

Mas... Temos também uma tremenda quantidade de estradas em péssimo estado, muitas delas até importantes ou que são a única ligação viável entre povoações. E a fazer fé no mapa de acidentes e a sua repetição em certos locais, a única conclusão a tirar é que há algo de muito errado no traçado de algumas delas.

Passemos à informática. Temos grandes pequenas empresas e programadores que “dão cartas” internacionalmente. Ou seja, estamos na vanguarda, há até quem seja pioneiro nessa área.

Mas... Curiosamente, quando se trata de informatizar coisas públicas, bom, as coisas não correm nada bem. Por exemplo, há uns anos a Biblioteca de Cascais andou a testar três programas diferentes para tratar, entre outras coisas, dos empréstimos aos leitores. Ao fim de bem mais de um ano foi finalmente escolhido um – não por quem lá trabalhava, já agora. Só que, pequeno detalhe, quem o usava tinha de ter um calendário à mão para ver se a data do fim do empréstimo não calhava num domingo ou feriado e, nesse casso, emendá-la “manualmente”. Por acaso eu andava na altura a fazer um curso básico de informática de 11 meses e já tinha aprendido a incluir num programa essa verificação e alteração...

Finalmente, o setor empresarial. Por um lado, empresas moderníssimas, nomeadamente no setor dos moldes, que exportam sem qualquer tipo de problemas, ou antes, que são escolhidas preferencialmente – pela NASA, por exemplo.

Mas... O país está também cheio de outras empresas, algumas até de grande dimensão, que parecem paradas em meados do século XX. Bom, parecem, não, estão-no, infelizmente. E a sua situação arrasta-se, ano após ano, porque qualquer modernização passaria pelo despedimento de muita da sua força laboral e isso “não pode ser”. Lembremo-nos, por exemplo, dos Estaleiros de Viana, que foram um sorvedouro de dinheiros públicos anos a fio só para “manter os postos de trabalho”.

É claro que ninguém pode ser pioneiro em tudo, mas que tal tentar alcançar um melhor equilíbrio? Só que, muito francamente, e a fazer fé no que acontece noutras áreas, para a nossa Esquerda isso significa, muito simplesmente, nivelar por baixo. E nesse caso, “a emenda seria pior que o soneto”, como se costuma dizer.

Para semana: A Guerra da Ucrânia Atitudes e opiniões dos nossos “especialistas” que me causam algum engulho...

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